Tipografia do Ateliê Acaia

Conheci o José Carlos em uma breve oficina de tipografia, proposta por Paulo Penna, coordenador do ateliê de gravura do Museu Lasar Segall,  em 2004. Era bem mais jovem que os demais tipógrafos que eu conhecia e isso me chamou muita atenção. Sempre fiquei intrigado com isso e ao elaborar o projeto dos mestres tipógrafos, seu nome logo me veio à cabeça pois poderia apresentar um perfil bem distinto. Ao recontatá-lo, encontrei-o através do Fabrício Lopes, que o chamou para trabalhar na oficina tipográfica do Ateliê Acaia, no Instituto de mesmo nome, na Vila Leopoldina, próximo ao Ceasa, São Paulo.

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J O S É  C A R L O S  G I A N O T T I

“Eu me chamo José Carlos Gianotti.
Nasci no ABC Paulista, em São Bernardo do Campo, no dia 14 de julho de 1980. Minha mãe é mineira, de Caratinga, meu pai é filho de italiano, nascido em São Paulo. Não sei como é que meus pais se conheceram, aliás, eu vou até perguntar, que agora eu fiquei curioso.

* * *

Meu pai adora música, adora um jazz americano, as orquestras com Glenn Miller, Duke Ellington, Count Basie. E escutando tudo isso desde criança, passei a gostar do blues, do jazz, do rock and roll, acabei trabalhando com música também. Fui cantor da noite, fui crooner de bandas, principalmente de rock and roll pesado. Tenho até um disco de blues gravado em 1982 pelo Estúdio Reunidas. A banda se chamava Ave de Veludo. Uma coisa meio Woodstock, Festival de Monterey… Fiz alguns shows, aqui em São Paulo, quando se tocava muito em teatro. Toquei no Cenarte, no Teatro das Nações… Fui convidado pela Rádio Brasil 2000, com mais dois vocalistas e fiz um trabalho junto com eles: toquei na USP, na Praça do Relógio, em um evento em homenagem ao Raul Seixas. Fiz um trabalho com uma banda chamada Contraversão, fazia muito rock da época, até pop, U2, Guns N’ Roses, essas coisas assim. E a gente tocava em casa noturna, mais pra diversão mesmo. Fiz show em Santa Catarina, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo. Em Três Corações, terra do Pelé, teve um baita festival, num descampado lá, não me esqueço até hoje. Tinha muita gente, público de umas 10 mil pessoas, e eram várias bandas: de samba, de rock, de tudo o que você podia imaginar… E foi até um pouco além, só que depois nas bandas tinha desacordos, como sempre. É complicado você fazer um trabalho em grupo, e isso é uma coisa que eu deixei congelada na minha vida, nunca mais voltei a fazer.

* * *

O começo do meu trabalho com gráfica foi na fase dos meus 14 anos. A minha mãe trabalhava numa indústria muito grande, na Via Anchieta, que fabricava remédio. A fábrica fazia suas próprias embalagens, as caixinhas de remédios, as bulas, algum tipo de propaganda, imprimia tudo dentro da empresa mesmo. Minha mãe conhecia o encarregado da gráfica, o Senhor José, e ela pediu um emprego pra mim. A gráfica tinha duas máquinas offset, de uma e de duas cores. E tinha três máquinas Minerva Catu bem conservadas. Tinha também uma máquina de corte e vinco, o cara colocava uma resma inteira, apertava dois botões, um segurava o papel e o outro fazia o corte, fazia até aquela barulheira, “zuuum”, de tão afiada que era a faca. Toda semana a gente estava afiando a faca, porque cortava muita folha mesmo, pra fazer impressão. Tudo lá era grande, tinha mesas enormes, compridas, assim do tamanho
dessa sala, uns seis, sete metros, sei lá. Era onde a gente fazia o destaque das caixinhas de remédios; então ficava aquele monte de criança, de um lado e do outro, fazendo destaque. Pegava um monte e ficava destacando.
Nessa gráfica tinha um tipógrafo com o cantinho dele, tudo bonitinho, arrumadinho… Aí eu via aquelas coisas: “Caramba, que é isso? Que bonito, né? Deve ser tão difícil fazer isso…”, montar aquelas letrinhas. E, naquele tempo, usava muita letrinha pequenininha e fininha, você tinha que ter a visão boa; eu tinha, hoje eu não tenho mais. Bula de remédio, as caixinhas com nome dos remédios na lateral, era feito tudo isso ali. Muitas eram feitas pra tirar a prova, pra fazer uma chapa de zinco, pra ir pra offset. Mas muitas, também, iam pra máquina. Tinha alguns trabalhos que iam pra Heidelberg plana, que é como se chama essa máquina.
O tipógrafo era um rapaz novo que estava ali e eu comecei a me interessar. O que eu fazia? Adiantava meu serviço, parava e ia lá. E comecei a perguntar, perguntar, na curiosidade do trabalho do cara… O chefe começou a perceber isso. Na primeira oportunidade, ele me colocou lá: “Ó, você vai aprender aqui, o rapaz vai te ensinar.” O rapaz estava saindo da firma. Ele tinha que cumprir aviso prévio, 30 dias. Só que ele começava a enrolar muito e não me ensinava nada, queria só matar o tempo, e eu comecei a fazer na raça. E aí eu fui pegando aquelas letrinhas, aquelas coisas. Até estraguei vários materiais…
Mas fui também me aperfeiçoando na tipografia. O rapaz foi embora e eu fiquei segurando esse rojão. Fui meio na raça, sou autodidata, né? Já existia o Senai, mas não cheguei a fazer exame pra fazer curso lá, era longe. E fui fazendo, aprendendo na raça, o Senhor José, quando dava, me ensinava. Aí, apareceu uma revistinha pra fazer, só que contrataram, realmente, um tipógrafo que trabalhava na Folha de S.Paulo. Naquele tempo, os jornais eram incríveis, né? Existia tipógrafo de monte que trabalhava dentro da empresa pra fazer paginação dos jornais, ou de revista. Então, o cara tinha que ser muito bom. E tipógrafo ganhava muito bem…
Esse tipógrafo era um senhor muito bacana, me ensinou muita coisa. Brincava comigo, falava muita piada e, nessa brincadeira, ele tinha a técnica de me ensinar, que é o que eu, hoje, faço com a moçada aqui. Às vezes, eu estou numa brincadeira com eles, já ensinando e eles não percebem, entendeu? São técnicas que a gente vai adquirindo com o tempo. E eu comecei a ver esse tipógrafo fazendo aquelas paginações. Daí, às vezes, eu montava uma fontinha ou outra. E era tudo bonitinho, a chapinha dele bem certinha, porque tem que ser bem justificada, que a gente fala, né?
O bom tipógrafo, em primeiro lugar, tem que ter uma boa criatividade. Ele tem que conhecer o que tem dentro da tipografia. Quando passam um trabalho pra ele, se for só cópia é só fazer. Agora, quando é pra criar um cartaz, aí ele tem que, realmente, ter uma certa criatividade, né? Ele não vai fazer um texto todo enorme numa página pequena que vai ficar muito estranho, ele vai ter que agrupar, fazer uma letra média, ou um pouco menor, pra ganhar um pouco de branco por trás daquilo, pra pessoa poder enxergar, poder ler aquele texto. São coisas que, na época, eu fui aprendendo. Quando você é criança… estou falando pelas crianças que trabalham aqui comigo, elas não têm essa noção, essa visão; tem que dar a visão pra elas, só isso. Elas têm capacidade, todo mundo tem capacidade, mas você tem que dar a visão. Então, esse tipógrafo me deu muita visão dessa coisa, de você montar texto.
Hoje eu resumo: um bom tipógrafo tem que fazer uma boa justificação da chapa; a chapa tem que ser bem feita, com carinho. Não pode ter má vontade de trabalho, essa é a realidade. Tem que pegar forte, fazer mesmo o trabalho bem feito, bem justificadinho, porque, quando vai pra máquina, se você não tiver a chapa bem justificada, a tinta chupa o material, encavala no rolo, quebra a máquina, entendeu?

* * *

Um dia pedi as contas, fui atrás de um salário melhor. O encarregado, o Senhor José, ficou até meio chateado de eu ter saído, porque a intenção que ele tinha comigo era a de me passar pra máquina offset. O top de linha, dentro da empresa, era a offset. Na época, se eu conseguisse trabalhar numa máquina offset, eu seria um profissional que poderia trabalhar em qualquer gráfica, ganhando muito mais, né? Porque a coisa pega na offset, você tem que manjar mesmo. Não é só você colocar a chapa lá, apertar e imprimir. O profissional de offset tem que saber fazer mistura de cores, a quantidade de tinta da impressão, fazer sem desperdício, tem que ser bom leitor de registro, de encaixe de cor, porque é cor sobre cor.
Acabei indo trabalhar numa fábrica de carimbo. Naquele tempo, em fábrica de carimbo se usava tipografia porque eram feitas chapas em tipografia e depois tiravam moldes no gesso. E depois o gesso secava no fogão e se usava a borracha pra vulcanizar. Fiquei ali um tempo, mas fui procurar trabalho em outras gráficas também. Aí, por conta própria, o que eu fazia? Procurava emprego pelo jornal. E o tipógrafo era uma profissão que ainda estava sendo reconhecida. Naquela época existia o tipógrafo, o distribuidor, que é o ajudante do tipógrafo, o impressor de máquina, o cortador de guilhotina e assim vai, né? Cada um tinha a sua função. Hoje em dia, é um aglomerado de funções numa função. Começava a trabalhar numa empresa, aí eu achava quem pagava melhor e ia pra outra. Ganhei muita experiência. Eu não me arrependo disso que eu fiz, porque eu ganhei muita experiência como tipógrafo, só enchendo carteira e salário aqui, salário ali, porque tinha isso mesmo.
Começou um movimento dentro do sindicato gráfico. As empresas, as gráficas que podiam pagar bem começaram a procurar os tipógrafos e tiravam da outra empresa, pagavam mais, e a gente saía. Nisso começavam a aparecer os “meia-boca”, que eram os tipógrafos ruins, que estavam a fim só de ganhar dinheiro pra cachaça ou sei lá o quê. Por incrível que pareça, meu, essas pessoas foram passando em várias gráficas pequenininhas, médias, e isso daí foi atrapalhando o trabalho, mesmo. Você entrava numa gráfica boa, quando você ia pegar o material estava tudo empastelado. Empastelado era misturado. Muitas vezes, o cara saía com bronca da empresa e misturava todo o material.
Então, teve essa revolução. Que, também, tem um pouco a ver com a ditadura, o final da ditadura no Brasil. Eu comecei a trabalhar em 74… No começo de 80, eu já estava mexendo com música, já tinha também um movimento estudantil. Pouco antes disso, teve um movimento sindical em São Bernardo do Campo, eu ainda vivia lá. Teve um baita show no pavilhão da Vera Cruz, a Elis Regina era viva ainda. Eu assisti, eu vi a Elis, o Fagner, o Gonzaguinha; eles tocaram nesse movimento. Movimento que foi feito lá, grátis, pra toda a população estar presente, mas foi um movimento que estava começando a brotar, realmente; o PT, o Lula ali por trás. Que, aliás, eu conheci também, incrível!

* * *

Trabalhei em várias, várias gráficas. Do mesmo jeito que teve esse movimento no sindicato dos gráficos, estava entrando o computador na vida da gente. Veio através dos bancos primeiro. Chegando na mídia, principalmente, escrita, jornal, revista, gráfica, aí, pronto, foi aquela revolução, né? Muitas gráficas começaram a fechar, porque você podia comprar um computador moderno, com uma impressora, imprimir. Dentro desse computador, tinha as ferramentas de tipografia, que eram as fontes de diagramação de texto. Aí, criaram lá uma impressora de cor e acabou ficando mais complicado ainda.
Foi uma fase que começou a ficar difícil. Fiquei meio perdido. Na música, aconteceram essas coisas também, não levei mais pra frente; a coisa ficou, também, um pouco perdida. Como na música, saí um pouco do ramo da gráfica. Fiquei sem emprego por um tempo, mas consegui arrumar uma vaga de garçom, estava começando a trabalhar na Associação dos Funcionários [Públicos] lá de São Bernardo. Comecei a trabalhar como garçom no salão. Preparava o salão, esterilizava, ajudava na cozinha um pouco, e comecei a ter a técnica, também, de atendimento ao público. Eu vendia bebida, então eu só passava, fazia a comanda, tirava a bebida e levava pra mesa. Comecei a fazer muita amizade.
Passei por esses trabalhos de garçom. Mas aí voltei a trabalhar com gráfica, numa gráfica especializada em diplomas, pra faculdades e universidades do Brasil, o Grupo Artes. Ali cheguei a ser responsável pela produção. Mas agora estou me lembrando porque eu saí do Grupo Artes; eu estava bem lá… É que eu montei uma casa de comida caseira em Santana.
Depois que tive o meu filho, o Caio, com a minha primeira esposa, o meu sogro na época me propôs montar uma casa de comidas em Santana. Montamos tudo num casarão antigo, grande, a gente morava no andar de cima. Consegui fazer uma clientela na casa. Eu fazia compra, quase todos os dias, levantava de madrugada, pegava o trem e ia no Mercado Municipal. Mas aí começou a vir o sistema de self-service, o sistema por quilo. E esse sistema começou a nos atrapalhar, porque você tinha que ter uma estrutura enorme pra poder ter uma variedade de salada e de pratos quentes pra oferecer pro cliente, e ele ir lá e se servir, pesar o prato e pagar, né? A gente não tinha essa estrutura. Comecei a perder cliente e acabei vendendo a casa. Falei pro meu sogro, meu sogro aceitou. Não sei se foi 30 ou 20 mil na época, metade foi pra ele, fiquei com metade, desempregado, tive que ficar segurando aquele dinheiro, pra pagar aluguel, né?
Consegui um trabalho numa gráfica na Rua Aurora, numa carimbaria enorme. Passou o tempo, acho que foram cinco anos que eu fiquei ali, e meu sogro me ofereceu, de novo, para abrir um bar no andar de cima de uma galeria da José Paulino. Ficamos lá um tempo, minha esposa que cozinhava, mas o movimento era fraco, e também não deu certo.

* * *

Hoje trabalho no ateliê tipográfico do Instituto Acaia, aqui na Lapa. Antes de sair do Grupo Artes, a empresa já tinha doado uma máquina e materiais gráficos pro Acaia. O Fabrício (Lopez) me chamou pra vir pra cá, organizar a oficina, fazer os impressos. Deu um trampo trazer essas outras máquinas e uma Minerva Catu. Então, as coisas foram migrando pra cá e eu fui fazendo esse trabalho com as crianças. Minhas experiências são assim, meio que entrelaçadas, né?
Estou aqui no Acaia já faz sete anos. As crianças, por exemplo, são quatro meninas no momento, elas estão descobrindo o que é tipografia agora, cada uma tem o seu trabalho. Esse aqui é de uma delas: ela quer cortar, fazer talvez um envelope, pra dar pras pessoas; fez outro legal, assim de abrir, meio de leque, deu pra mãe dela. E tem umas frases que eles pegam, copiam ou criam, “Nessa realidade cruel, um mundo imaginário, surreal, é essencial.” Vem da cabeça deles, cara. Juventude, energia.
Então, é isso o que eles fazem. Aí, tem outras coisas que acontecem por aqui: por exemplo, no primeiro semestre, teve uma turma de artistas do Norte e Nordeste do Brasil, aqui no Acaia. Tinha um que fazia uns trabalhos em madeira, gravura, umas coisas assim. Nossa, foi muito legal. Os caras fizeram até uns trabalhos de madeira, umas casas, uns brinquedos. Brinquedo imaginário, com tudo o que você podia imaginar. O cara fazia uns brinquedos com parafusos, caixinha de papelão, criava lá um cachorro, mas tudo bem feitinho. E teve a exposição em um pavilhão onde já veio até orquestra tocar.
Então, esses artistas estiveram aqui. O que aconteceu? Como você está fazendo uma entrevista comigo, fizeram com eles, também. Eles contaram um pouquinho da história da vida deles. Isso daí foi passado pra uma diagramação de texto e nós vamos fazer um livro, contando essas histórias com imagens que as crianças vão criar. A forma como vai ser esse livro, eu não sei ainda.
Eu penso em coisas bem mais evolutivas, mesmo, em termos de impressão. Mas o problema maior que eu tenho na tipografia é a manutenção. Você tem a manutenção dos materiais, do tipo. Vão acabando as coisas. Não tem mais fábrica que faz; mandar fazer é uma nota desgraçada que os caras cobram, entendeu? Máquina, também, precisa tomar cuidado com a peça; se quebrar, tem de mandar fazer, ferramentaria que não existe mais… Então, esse
é um grande problema, né?
Olha, tipógrafos eu não conheço mais, viu? Eu conheço um rapaz que mora perto de casa, ele tem uma tipografia pequenininha, tem aquela Heidelberg plana que eu falei pra você, mais uma Minerva Catu. E ele produz, faz trabalho pro bairro. Se contratar, ele faz, entendeu? Não sei se ele está fazendo hoje, ainda, porque, no ano passado, ele estava até vendendo. Ele me falou: “Cara, quer comprar toda a tipografia?” Mas ele queria muita grana, não dá.

* * *

Por que a tipografia ainda chama a atenção? Olha, na minha opinião, existem pessoas que são curiosas por esse passado, entendeu? E elas querem ver esse passado, elas querem sentir, elas querem olhar. Porque uma impressão de computador nós vemos em qualquer lugar. Hoje em dia, você percebe, você sabe como é uma impressão digital. A impressão tipográfica tem essa magia de você ver, na própria impressão, um pouco de imperfeição na gravação, uma cor diferente, uma coisa que hoje é artesanal.”

 

T I P O G R A F I A  D O  A T E L I Ê  A C A I A

Rua Dr. Avelino Chaves n. 80
Vila Leopoldina São Paulo SP Brasil
t. 11. 3832.5804
http://www.acaia.org.br

Impressor: José Carlos Gianotti
Assistente: Danilo Juliano

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