Ary Artes Gráficas

Andando pela Zona Norte, perto do metrô Parada Inglesa, deparei-me com a porta de uma garagem aberta de onde vinha o som familiar de uma minerva em ação. Assim conheci a pequena oficina do Sr. Aryovaldo, que não estranhou meu interesse pelo seu trabalho e foi logo estendendo um cartão de visita: “faço receituário, coisa pouca, pequena… Não trabalho todo dia aqui, se quiser me achar, liga num desses números aqui…”

Demorou algum tempo para eu procurá-lo, mas quando voltei aceitou de bom grado ser entrevistado.

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A R Y O V A L D O  C O R D E I R O

“Meu nome é Aryovaldo Cordeiro. Nasci no dia 8 de fevereiro de 1948. Meu pai era santista, policial militar. Minha mãe nasceu no interior de São Paulo, numa cidade chamada… Como é mesmo? Amparo! Ainda quero conhecer esse lugar, essa cidade. Minha mãe era do lar. Nasci em São Paulo e minha vida toda foi por aqui mesmo, pra esses lados da Parada Inglesa.
O trem passava aqui na rua de cima.
O trem de Jaçanã, ouviu falar? Tinha uma parada aqui, às 11 da manhã.
Me lembro bem de muita coisa, muita história, o pedaço aqui mudou muito.

* * *

Quando eu tinha uns 20 anos, comecei a trabalhar numa seguradora, a Cia. Boa Vista de Seguros, que ficava lá no Centro, na Conselheiro Crispiniano. Trabalhei uns anos por lá. Um dia, estava de férias e me ofereci como vendedor numa loja de carimbos que ficava em frente à seguradora. A loja se chamava Copiadora Crispiniano. Vendiam muito carimbo, mas faziam também cartão de visitas, placa gravada, bloco de carta, essas coisas assim de gráfica miúda. Tomei gosto pela coisa e acabei ficando. Trabalhei uns oito meses por lá, mas me desentendi com o dono e acabei saindo. Decidi trabalhar por conta. Saía por aí oferecendo cartão de visitas, bloquinho pra receita médica, receituário. Conheci muito médico nessa época, conheci dentista, advogado… muita gente.
Eu levava uns modelos, o pessoal me encomendava e eu passava pra uns colegas, uns parceiros imprimirem. Ganhava pela venda. Foi assim muito tempo, passando aperto às vezes. Isso é assim até hoje, foi assim a vida inteira, às vezes tem serviço, às vezes não tem. Passei muito aperto. Até que um dia – fazia muito serviço com Seu Hirata, um japonês que imprimia muito bem – cheguei na oficina dele e ele me disse que estava cansado, queria parar de trabalhar, estava pensando em vender tudo. Aí, eu disse: “Se você vender, eu compro.”
Comprei essa Catu aqui. Junto vieram uma meia dúzia de gavetas, os lingotes, os espaços, rama, tudo, mas nem era tanta coisa assim. Nunca estudei. Aprendi tudo na raça. E assim fui indo. Um tempo depois, outro conhecido também se desfez de umas gavetas. Arrematei. Veio esse móvel bonito com gavetas, olha só, de plástico, muito boas. Esse móvel era pra exportação, ia pros Estados Unidos. Acabei comprando mais uma máquina impressora um pouco mais nova, depois uma guilhotina e depois uma picotadeira.

* * *

O mercado pra gráfica tá muito bom, mas o sujeito precisa ter uma grana pra investir. O maquinário hoje custa caro. Precisa ir com calma, mas, querendo, consegue. Tem hoje muitas gráficas, trabalhando com digital e offset. Tem a gráfica Futura, a gráfica das gráficas – que trabalha com vários tipos de gráfica –, é muita concorrência. Ganho muito serviço pelo preço. Cobro R$ 80,00 pelo milheiro de um receituário. E tem gente que reclama do preço. Já teve gente que pegou as coisas e foi embora, foi fazer com outro. Paciência, não posso fazer malfeito, cobro a minha qualidade, e tem um preço… Não dá pra fazer a preço de custo só, tem que ter uma compensação.
Mas ainda tenho muito cliente − psicólogo, fonoaudióloga… Tem gente que me pede serviço há anos.

* * *

No mais, gosto muito é de baile. Sou “baileiro”. Isso desde moleque, sempre fui muito solicitado pra dar baile. Tem até uma foto aqui, do dia que dei meu primeiro baile. O povo gostava mesmo. Sempre muito samba-rock, era do que o pessoal mais gostava e ainda toco muito. Quando era mais novo, teve vez que toquei das nove da noite às nove da manhã, ia pra casa dar um cochilo, avisava a mãe: “Me acorda a uma que às duas tem baile.”
Era muito baile que tinha, e eu sempre no meio, com as namoradas e tal. Tinha baile de branco e baile de preto, que a gente chamava baile da raça. E, quando o baile era de preto e de branco, a gente chamava “misto-quente”. No “misto-quente”, os brancos ficavam num canto, os pretos num outro, e então tocava músicas de branco, depois tocava as músicas de preto. Depois, misturava.
Foi assim muito tempo. Ganhei dinheiro com isso, mas sempre como passatempo. Comprei até um Fusca “bizorrão”, amarelo, com uma faixa preta, carro de boy mesmo. Até hoje, dou uns bailes por aí… Olha só o tanto de CD que eu tenho! Tem de tudo, principalmente samba-rock. Tem uns sertanejos também, que nem gosto muito, mas às vezes as pessoas pedem e tem que ter. Hoje, a molecadinha me pede “toca um charme”. Não gosto, mas o menino pede, eu ponho. Outro dia, coloquei um “charminho”; os “negão” tudo lá, só ouvindo, sem dançar. Aí eu perguntei: “Não vão dançar, não?”

* * *

Antes tinha muita tipografia, linotipo também, nossa! Litografia conheço de nome e de ver algum impresso, nunca trabalhei. Com linotipo também não. Só com tipografia. Mas tem um cidadão, o Waldir, lá no Cambuci, na Rua dos Alpes, que ainda trabalha com linotipo. Às vezes vou lá pra fazer alguma montagem. Ele me dá o texto já em linhas e aqui eu arrumo, vou compondo, abrindo espaços entre as linhas, faço a blocagem, deixo do meu jeito, do jeito que precisa ser. Às vezes passa aqui uma garotada − porque aqui é tudo aberto, trabalho na rua −, e os meninos não acreditam que ainda imprimo assim, dizem que tô desatualizado. É um trabalho bonito, mas muita gente não dá valor.

Tenho dois filhos e três netos. Meu filho até que me ajudou um pouco, mas não se interessou muito por essa profissão. Cada um segue seu caminho. E isso hoje é o meu trabalho, aqui é o meu canto. Eu amo o que faço. Sai bem feito porque faço com amor. Preciso ajeitar umas coisas, essa umidade na parede, mas agora, pra pintar, só no final do ano. Me apareceu muito serviço. Hoje vou até umas dez da noite.”

*

 

A R Y  A R T E S   G R Á F I C A S
O  R E I  D O  R E C E I T U Á R I O

Avenida Luiz Dumont Vilares n.1565
Parada Inglesa São Paulo SP Brasil
t. 9.7165.6330

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