o projeto

Palavras e imagens de pessoas cujo ofício é a impressão de palavras e imagens

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Do convívio de muitos anos com o meio gráfico – do ambiente artesanal dos ateliês de gravura às rotativas offset de jornais e revistas – surgiu a idéia desse projeto: uma aproximação do universo pessoal e profissional de trabalhadores da indústria gráfica. Uma indústria que tem origens, no ocidente, há mais de quinhentos anos e que não pára de se expandir tecnologicamente.
No Brasil, no ano de 2008, comemoraram-se os 200 anos da imprensa nacional, iniciada regiamente com a vinda de D. João VI e da corte portuguesa. Durante todos esses anos, com maior ou menor ênfase em alguns períodos, a indústria gráfica brasileira acompanhou a evolução das técnicas e dos procedimentos na produção de impressos, passando da tipografia (sistema de impressão a partir de matrizes ou tipos móveis de madeira ou metal) e da litografia (sistema de impressão a partir de matrizes de pedras calcáreas, que apresenta em essência a concepção de funcionamento do atual sistema offset) aos meios digitais contemporâneos.
Um aspecto interessante da história das técnicas gráficas reside no fato de que, pela diversidade da produção que sempre acompanhou essa indústria – de simples cartas de baralho a complexos livros  –, diferentes sistemas de impressão convivem lado a lado, sem se tornarem anacrônicos se consideradas suas conveniências econômicas. Sendo assim, ainda vemos em nosso meio gráfico paulistano, em pleno século XXI, antigas tipografias funcionando como nos tempos de Gutemberg, auxiliadas agora pela eletricidade e a tecnologia advinda da revolução industrial, atendendo ainda a uma pequena clientela.
É comum a avaliação, que no próprio meio gráfico se propaga, sobre o “desaparecimento” desse sistema tipográfico baseado em tipos móveis de metal ou madeira. Seu uso comercial estaria obsoleto, principalmente frente às qualidades do sistema offset ou digital na reprodução de imagens coloridas, se formos citar apenas uma das demandas mais simples do mercado atual.
Desse modo, técnicos formados num momento em que a tipografia ainda era uma forma relativamente competitiva no mercado gráfico, para a produção de alguns impressos específicos (estamos falando de poucas décadas atrás) encontram-se agora em outra perspectiva profissional.
O projeto “Mestres tipógrafos” pretende flagrar esse momento de transformação significativa, registrando expectativas desses profissionais ainda atuantes e, também, coletando informações, dados históricos e lembranças que possam contribuir para configurar tempos já vividos. Com metodologias de memória oral, foram entrevistados 3 profissionais, representantes de 3 tipografias atuantes na cidade (Gráfica Roberto Rossini, Tipografia do Ateliê Acaia e Ary Artes Gráficas) reproduzindo-se também fotos e documentos de seus acervos pessoais.
As pessoas a serem entrevistadas foram escolhidas não só por sua experiência profissional, mas por já ter havido certo convívio de trabalho onde se percebeu a riqueza de suas trajetórias pessoais, que ilustram de diferentes maneiras a São Paulo e o Brasil, de ontem e de hoje. Para citar apenas o exemplo de um deles, Sr. Roberto Rossini, paulistano, 87 anos, que na década de 1940 formou-se impressor pelas Escolas Profissionais Salesianas instaladas junto ao Liceu Coração de Jesus, no Instituto Dom Bosco, no elegante bairro dos Campos Elíseos. Sua residência, desde o nascimento, concentrou-se na chamada Lapa de Baixo, zona oeste, entre a linha férrea e o Rio Tietê. Ali estabeleceu pequena gráfica na década de 1950, ainda hoje atuante na produção de pequenos impressos, volantes e cartões de visita, com demandas cada vez menores, vale lembrar.
Sua entrevista revive tempos de bonde e um ritmo já acelerado de crescimento na cidade, mas muito distinto do atual; aproxima-se de outros espaços, antigos e novíssimos a um só tempo. Assim como Sr. Roberto Rossini, Aryovaldo Cordeiro e José Carlos Giannotti, que também trabalham com tipografia, apresentam visões de suas vidas.

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Todo esse material serve de base para a produção de uma publicação especial, totalmente impressa em tipografia pelos próprios entrevistados, com tiragem de 200 exemplares, que transforma-se em material expositivo. A associação entre palavra e imagem ocorre de forma que não haja prevalência de uma sobre a outra, mas complementação e ampliação de significados e leituras. A exposição do processo de produção da publicação, ocorrida na Oficina Cultural Oswald de Andrade, Bom Retiro, São Paulo, de 16 de fevereiro a  13 de abril, apresentou as matrizes de impressão do livro – tipos móveis, clichês de zinco, linhas de texto em chumbo do linotipo – e também as provas de impressão.

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Sobre as entrevistas
As entrevistas não buscaram somente o mero registro de dados biográficos e da trajetória profissional, mas ampliou seu foco ao buscar as histórias de vida dos entrevistados, que fossem relatadas expontaneamente. Considerou-se que, o que seria dito a partir de uma pequena sugestão de fala, traria de alguma forma o retrato da pessoa hoje, que se constituiria de memória e imaginação. Abria-se a entrevista com a proposta de conversar sobre a vida dessas pessoas, partindo de sua relação com o trabalho. Naturalmente esboçou-se em todas as três entrevistas uma narrativa de trajetórias. Fotos pessoais, documentos e objetos selecionados pelos entrevistados foram considerados como parte de suas narrativas.
A publicação final, somada à exposição de parte dos processos de sua produção, pretende permitir ao público as mais variadas leituras desse projeto.

Justificativa
Num momento em que ocorre, devido aos avanços da informática e dos meios de comunicação, uma banalização das imagens, o projeto “Mestres tipógrafos” – que tem como tema a memória e a visão de futuro de alguns profissionais da área –, propõe uma reflexão sobre as questões da linguagem gráfica. As relações entre textos e fotos ou desenhos são estudadas no formato de um dos produtos gráficos mais tradicionais, o livro impresso, acrescido da incumbência de poder se desdobrar e mostrar sua estrutura, desmembrando suas páginas e prestando-se a uma outra relação de leitura, integrando os painéis de uma exposição.
Essa flexibilidade na formatação, associada a um livro cujo conteúdo diz respeito a experiências de vidas que professam os ofícios gráficos, presta-se a uma interessante experiência metalinguística.
Como produto gráfico, devido ao processo quase “artesanal” de sua produção (os livros foram inteiramente impressos no sistema tipográfico, em diferentes gráficas – e montados um a um, manualmente), o livro apresenta um caráter experimental bastante original.
A maior parte da tiragem de 200 exemplares dessa publicação será disponibilizada a bibliotecas públicas (Mário de Andrade, Centro Cultural São Paulo), de escolas de design (FAU e ECA USP, SENAC, ESDI, entre outras), de centros técnicos gráficos (SENAI) e de instituições como IEB USP, MAC, MAM e Pinacoteca do Estado.

Descrição da publicação
12 lâminas (ou 48 páginas) em formato aberto 21 x 29 cm cada uma, formato fechado 21 x 14,5 cm, em papel Colorplus 120gr/m2 (entrevistas), papel kraft 80 gr/m2 ou Superbond 75 gr/m2 (folha de créditos) e kraft 400 gr/m2 (capa), impressas em tipografia e encadernadas sem costura ou grampo.

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IMG_9670aFicha técnica da publicação

Os depoimentos foram coletados ao longo de 2012 por Gilberto Tomé, que também fez as fotos, a edição dos textos e o projeto gráfico. Transcrição de Jackeline Stefanski Bernardes e Denise Malta de Andrade. Revisão de Sílvia Balderama. Linotipos fundidos por Valdir Laurindo Sbampato. Clichês executados pelo Estúdio Zincolito.

A publicação foi impressa em tipografia, com tipos móveis, linotipos e clichês, sobre papéis coloridos Colorplus 120g/m2, Superbond 75g/m2 ou Kraft 80g/m2 para a folha de créditos e capa em Kraft 400g/m2 . A impressão foi realizada conjuntamente pela Gráfica Fidalga (impressora Maschinenfabrik Johannisberg, Geisenheim am Rhein, 1929), Ary Artes Gráficas (impressora Minerva Catu Platina), Gráfica Roberto Rossini (impressora Heidelberg de leque) e Tipografia do Ateliê Acaia (impressora Vandercook Manual), Acabamentos de corte e vinco na Compulaser.
Tiragem de 200 exemplares.
Agradecimentos especiais ao Sr. Roberto Rossini e a sua esposa Jacyra, ao Sr. Aryovaldo Cordeiro, a José Carlos Gianotti, a Cláudio Vieira e a sua esposa Rosa (Gráfica Fidalga) pela atenção e colaboração neste projeto. Agradecimentos a Danilo de Paulo, Fábio Mariano, Fabrício Lopez, Valdir Laurindo Sbampato, Antonio Eduardo Majado, Márcio Oliveira (Clicheria Voluntários), Frederico Floeter, Maria Geralda da Silva, Maria de Lourdes Tomé, Mauro Moreira,
ao Instituto Acaia, à equipe da Fonte Design e a todos que, direta ou indiretamente, ajudaram a realizar este projeto.

A publicação é dedicada a Ricardo Bruhns Rossini (in memoriam).

Projeto realizado com o apoio do Governo do Estado de São Paulo
Secretaria de Estado da Cultura, Programa de Ação Cultural 2011

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